sexta-feira, 30 de outubro de 2009

Déjà vu

Antes de dormir eu abraço muito forte o travesseiro como se com isso pudesse abraçar o tempo e fazer com que a noite não passasse. Meu estômago grita de dor e implora para que tudo seja esquecido, para que tudo seja apagado. Eu mergulho e os rostos não somem e as preocupações não perdoam e a dor não ameniza. Eu fico preso. E a luz distorce meu rosto. A vontade de chorar é forte o bastante para me fazer chorar, mas a vontade de chorar não é tão forte a ponto de me fazer chorar. Desespero. E vem aquela sensação de solidão, quando você não tem saída senão caminhar por você mesmo. A flor - que poderia ser a salvação, o refúgio, o aconchego - de repente se mostra vilã, malvada. E eu me lembro. Eu volto para onde não queria voltar. E descubro que talvez meu coração não seja tão frio assim. Mas um coração que não é frio também não controla o tempo. Aliás, brincar com o tempo não teria utilidade. As atitudes das pessoas têm utilidade. Infelizmente, o filme não te cativa o bastante, a música não te encanta tanto e o livro não te prende muito. O maior presente de Deus não seria tão óbvio, previsível, correto. Todos os novos sentimentos que adquirimos nos engrandecem. Eles nos ensinam a colecionar pequenos detalhes que um dia se tornam grandes e prontos para serem entregues nas mãos de quem você ama. E tudo gira. E eu penso. E eu me rendo. Talvez o cultivo me ajude a fugir dos meus monstros - pelo menos por um tempo. O problema é que é um ciclo. O medo faz meu pescoço ferver. Todas aquelas pessoas ali não podem me auxiliar. Minha covardia é tão patética que me joga no rio e assim me deixa. Sozinho. Gritando por dentro. Sorrindo por fora. E eu mesclo o que eu tenho em minha mão. Enquanto não consigo enfrentar e matar tais monstros, eu apenas me defendo. Tenho como escudo a raiz de uma linda árvore, as imagens que me incentivam a agir, os ruídos que cobrem meus cenários, as palavras que estampam minha mente e uma flor.
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"Stay up till four in the morning
And the tears are pouring
And I want to make it worth the fight"
4 in the morning - Gwen Stefani

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

Torpor

No dia 14 de janeiro deste ano, eu escrevi aqui no blog: “Talvez minha vida dê uma guinada logo logo. E aí sim eu irei sorrir”. No dia 23 de fevereiro, eu postei: “Mesmo que algumas coisas permaneçam do jeito que eu não quero que permaneçam, eu sinto uma pontinha de felicidade vindo lá de dentro. Acho que é esperança. Esperança de mudança”. E nas duas datas eu não imaginava que meses depois eu pediria demissão do meu aterrorizante emprego e terminaria meu namoro de dois anos. E o que havia sido preparado pra mim era um novo emprego e um novo namoro. Que medo. Acho que as palavras realmente têm poder. A única coisa ruim é que quando eu comecei a escrever este post aqui, eu estava preparado pra falar de coisas boas e de felicidade e de sorrisos. Agora – porque eu já tentei continuar este post muitas vezes –, não tenho o mesmo sentimento de antes. E, pra variar só um pouquinho, é por causa do trabalho. Fui registrado, o que significa trabalhar das 8h às 18h e aos sábados, e fui para outro setor do supermercado: o financeiro. O incrível é que ninguém quis saber se eu estava disposto a ir pra lá ou se meu perfil se encaixava no cargo. Eu simplesmente fui mandado pra lá. Agora exigem coisas que eu não faço ideia de como fazer e eu começo a me sentir desanimado e deprimido como eu me sentia no escritório de contabilidade. O que me mantém de pé é o meu amor. Aliás, no dia 28 de outubro, nós completaremos quatro meses de namoro. Outubro. E falar de Maysa, Coffee at Luke’s, Presença de Anita, Alice no País das Maravilhas, Dom Casmurro e Gossip Girl durante o ano me fez chegar em outubro sem escrever sobre o que acontecia em outras partes da minha vida. A faculdade continua entediante, mas não tão difícil. Tudo bem que eu não tiro dez em todas as matérias, mas é pura preguiça. Ainda bem que o último ano já ta aí. Conheci pessoas maravilhosas no trabalho e o fato de trabalhar com elas me deixa um pouco menos pra baixo por estar lá. Carine, Fran, Rafa, Dani, Elaine, os dois Cássios, etc e etc. Com eles era muito mais gostoso trabalhar. O ambiente era de harmonia e nós demos muita risada. Pena que acabou. Só espero que essa ventania de sensações ruins passe. Assisti alguns filmes durante o ano, dos quais não lembro agora. Só registrando que Ensaio Sobre a Cegueira me deixou com uma dor de estômago que nunca senti vendo filme antes. Ganhei o DVD de Hairspray e os boxes da primeira temporada de Pushing Daisies, sétima temporada de Gilmore Girls – agora tenho toda a série! – e o box de Capitu. Os presentes perfeitos. Dados por alguém que me conhece melhor do que eu mesmo. Alguém que me escreveu a carta mais linda e tocante que já recebi. Li – na verdade, leram pra mim – O Pequeno Príncipe e depois eu ganhei o livro. Resolvi dar uma chance a Lua Nova só por causa do filme que estreia em novembro e, acredite se quiser, to gostando demais! Bem superior a Crepúsculo. Melhor trama, melhores metáforas, melhor vocabulário e bem mais cativante. To baixando a terceira temporada de Gossip Girl, espero baixar o resto da segunda de Samantha Who? e a quinta de Lost. Espero tanta coisa... Espero terminar a faculdade, não depender mais de empregos que eu detesto e procurar algum trabalho que me complete, pra que eu possa me encontrar. Pra que eu possa sentir orgulho do que faço. Pra que eu possa trabalhar com prazer. Pra que eu não escreva outro post tão doloroso quanto este, tentando preencher as linhas com as coisas que me deixam feliz apenas pra cobrir aquelas que me perturbam e não param de machucar meu peito.

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"These excuses
How they served me so well
They've kept me safe
They've kept me stoic
They've kept me locked inside myself
These excuses
How they're so familiar
They've kept me blocked
They've kept me small
They've kept me safe inside my shell
"

Excuses - Alanis Morissette

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

Você sabe que me ama

Tá, quem apostou que eu nunca me interessaria por Gossip Girl – e, só pra constar, eu estou no topo dessa lista - pode pagar a aposta. A série é o mais novo vício. Intrigas, mentiras, fofocas, surpresas. Tudo ali me fascinou de uma maneira inexplicável. E essa é a melhor prova de que as aparências enganam. Eu sempre via propagandas da série, via minha irmã assistindo, via o sucesso que estava fazendo no mundo e nunca tinha vontade de chegar perto. Achava que seria tão entediante e um pouco fútil como The OC, One Tree Hill, Dawson’s Creek, etc. Mas bastou o piloto pra me fazer ficar atônito, curioso e com vontade de continuar assistindo. E essa vontade não cessou. Na verdade, ela me perturbou durante esses dias todos. No trabalho, na faculdade, enquanto estava com os meus amigos, eu só pensava em assistir Gossip Girl e presenciar mais algum escândalo que me faria aplaudir ou ficar de boca aberta. Não sei se gosto da série pelos motivos corretos, mas posso dizer que amo a narração da Kristen Bell e o sarcasmo da personagem, amo a Blair e o charme dela ao colocar seus planos em ação, amo as reviravoltas e a maneira como tudo acontece de repente na vida dos personagens. Às vezes eu fico alegre, às vezes morrendo de raiva, às vezes me decepciono e às vezes acho que a série não poderia ser escrita de um jeito melhor. E fiquei com medo quando percebi que eu já considerava a série no nível em que considero Alias, Gilmore Girls, Veronica Mars e Pushing Daisies ao comprar o box da primeira temporada pela internet. Terminei a primeira temporada ontem, comecei a segunda hoje e já não vejo a hora de assistir a terceira. E parece que agora aquela história de cuspir pra cima faz tanto sentido...
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"Get you where you wanna go, if you know what I mean
Got a ride that's smoother than a limousine
Can you handle the curves? Can you run all the lights?
If you can baby boy, then we can go all night
'Cause it's 0 to 60 in 3.5
Baby you got the keys
Now shut up and drive, drive, drive, drive..."
Shut up and drive - Rihanna

quarta-feira, 12 de agosto de 2009

Um exemplar em milhões e milhões de estrelas

Eu não sabia que era capaz de dedicar tamanho amor a alguém como agora. Sabe a sensação de querer cuidar, querer ver a pessoa feliz, querer estar com ela o dia todo? E eu pude ser eu muito cedo. E eu percebi que nossos gostos são muito parecidos. Os desentendimentos vêm, mas em qualquer relacionamento eles vêm. Aos poucos vou conhecendo mais, vou mostrando tudo o que quero mostrar, vou preenchendo meus dias com momentos mágicos e sorrisos iluminados. De repente tudo ficou perfeito: nossas conversas, nossas brincadeiras, nossos passeios, nossa intimidade, nosso afeto, nossa confiança. Porque o que importa, o que está lá no topo da lista de prioridades é a confiança. É saber que você está com alguém que, em qualquer situação, vai ser sincero com você. E um dos melhores pontos é que acreditamos e valorizamos as mesmas coisas. Não troco nada por isso e não quero viver nada no lugar disso.
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Podem me chamar
E me pedir e me rogar
E podem mesmo falar mal
Ficar de mal que não faz mal
Podem preparar
Milhões de festas ao luar
Que eu não vou ir
Melhor nem pedir
Eu não vou ir, não quero ir
E também podem me obrigar
Até sorrir, até chorar
e podem mesmo imaginar
O que melhor lhes parecer
Podem espalhar
Que eu estou cansado de viver
E que é uma pena
Para quem me conheceu
Eu sou mais você e eu
Você e eu - Vinicius de Moraes

segunda-feira, 29 de junho de 2009

Eu não quero ser só um nome amanhã

Uma sensação diferente. De repente, eu comecei a cultivar sentimentos por alguém que eu nem conhecia. E se as comunidades do Orkut não significassem nada? E se as fotos não mostrassem realmente o que estavam mostrando? Só posso dizer que não permaneci com os pés no chão. Pelo contrário: fiz questão de ficar flutuando e construindo uma esperança. Esperança de amar de novo. E dei um jeito para que tudo se encontrasse. Noite fria, luzes e risadas. A sintonia foi tamanha que gerou conversa até o dia amanhecer. E eu ouvi. E eu observei. E eu apostei. Apostei porque raras pessoas são assim e era justamente esse tipo de raridade que eu procurava. Eu não queria sair dali nunca mais. Dirigi para outro lugar e conheci outros lugares. Muita novidade para uma única manhã. Sorriso, olhos, gestos, palavras. Medo. E nossas almas se encontraram.
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"Se você quiser
Eu vou te dar um amor desses de cinema
Não vai te faltar carinho
Plano ou assunto ao longo do dia"
Ai, ai, ai - Vanessa da Mata

sábado, 20 de junho de 2009

Aquele sorriso

É tanta coisa nova. Eu estou mais do que situado no meu estágio porque fiz amizades muito rapidamente e me sinto mais do que bem lá. Mais uma vez fui trapaceado por quem eu amava imensamente e fiz questão de dar um basta no que tínhamos. A realização do relatório de estágio tomou grande parte do meu tempo livre nesses últimos meses. Me encantei e me decepcionei e parece que algum resquício de alguma coisa não definida ainda permanece aqui dentro. As provas do segundo bimestre começaram e são as mais imprevisíveis ever. Comecei a ler Ponto de Impacto, mas não quis continuar. Passei a tomar um remédio diário pra tratar minha enxaqueca. E quando eu tiver um tempo, eu venho postar sobre o fim de Pushing Daisies. E quem sabe contar alguma novidade boa em relação ao que não saiu da minha cabeça durante a semana inteira.
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"I don't wanna talk
About the things we've gone through
Though it's hurting me, now it's history
I've played all my cards
And that's what you've done too
Nothing more to say, no more ace to play
(...)
I was in your arms
Thinking I belonged there
I figured it made sense
Building me a fence, building me a home
Thinking I'd be strong there
But I was a fool, playing by the rules"
The winner takes it all - Abba

quarta-feira, 13 de maio de 2009

O penteado

Capitu deu-me as costas, voltando-se para o espelhinho. Peguei-lhe dos cabelos, colhi-os todos e entrei a alisá-los com o pente, desde a testa até as últimas pontas, que lhe desciam à cintura. Em pé não dava jeito: não esquecestes que ela era um nadinha mais alta que eu, mas ainda que fosse da mesma altura. Pedi-lhe que se sentasse.
– Senta aqui, é melhor.
Sentou-se. “Vamos ver o grande cabeleireiro”, disse-me rindo. Continuei a alisar os cabelos, com muito cuidado, e dividi-os em duas porções iguais, para compor as duas tranças. Não as fiz logo, nem assim depressa, como podem supor os cabeleireiros de ofício, mas devagar, devagarinho, saboreando pelo tato aqueles fios grossos, que eram parte dela. O trabalho era atrapalhado, às vezes por descaso, outras de propósito, para desfazer o feito e refazê-lo. Os dedos roçavam na nuca da pequena ou nas espáduas vestidas de chita, e a sensação era um deleite. Mas, enfim, os cabelos iam acabando, por mais que eu os quisesse intermináveis. Não pedi ao céu que eles fossem tão longos como os da Aurora, porque não conhecia ainda esta divindade que os velhos poetas me apresentaram depois; mas, desejei penteá-los por todos os séculos dos séculos, tecer duas tranças que pudessem envolver o infinito por um número inominável de vezes. Se isto vos parecer enfático, desgraçado leitor, é que nunca penteastes uma pequena, nunca pusestes as mãos adolescentes na jovem cabeça de uma ninfa...Uma ninfa! Todo eu estou mitológico. Ainda há pouco, falando dos seus olhos de ressaca, cheguei a escrever Tétis; risquei Tétis, risquemos ninfas; digamos somente uma criatura amada, palavra que envolve todas as potências cristãs e pagãs. Enfim, acabei as duas tranças. Onde estava a fita para atar-lhes as pontas? Em cima da mesa, um triste pedaço de fita enxovalhada. Juntei as pontas das tranças, uni-as por um laço, retoquei a obra, alargando aqui, achatando ali, até que exclamei:
– Pronto!
– Estará bom?
– Veja no espelho.
Em vez de ir ao espelho, que pensais que fez Capitu? Não vos esqueçais que estava sentada, de costas para mim. Capitu derreou a cabeça, a tal ponto que me foi preciso acudir com as mãos e ampará-la; o espaldar da cadeira era baixo. Inclinei-me depois sobre ela, rosto a rosto, mas trocados, os olhos de um na linha da boca do outro. Pedi-lhe que levantasse a cabeça, podia ficar tonta, machucar o pescoço. Cheguei a dizer-lhe que estava feia; mas nem esta razão a moveu.
– Levanta, Capitu!
Não quis, não levantou a cabeça, e ficamos assim a olhar um para o outro, até que ela abrochou os lábios, eu desci os meus, e...
Grande foi a sensação do beijo; Capitu ergueu-se, rápida, eu recuei até à parede com uma espécie de vertigem, sem fala, os olhos escuros. Quando eles me clarearam, vi que Capitu tinha os seus no chão. Não me atrevi a dizer nada; ainda que quisesse, faltava-me língua. Preso, atordoado, não achava gesto nem ímpeto que me descolasse da parede e me atirasse a ela com mil palavras cálidas e mimosas... Não mofes dos meus quinze anos, leitor precoce. Com dezessete, Des Grieux (e mais era Des Grieux) não pensava ainda na diferença dos sexos.
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Capítulo 33 de Dom Casmurro, Machado de Assis.